Retrospectiva Seis meses de lama e destruição: Abril

(Foto: Reprodução)

Enquanto o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recomendava que a pesca no  Rio Doce continuasse interrompida por prazo indeterminado, em função da presença de elevados níveis de contaminação por metais tóxicos nos peixes e crustáceos da região. A contaminação por metais de alguns peixes do Rio Doce ultrapassa os limites permitidos por legislação em até 140 vezes. Este, por exemplo, é o nível de arsênio encontrado no peixe roncador, quando o máximo tolerado seria 1.

Além de arsênio, foram identificados metais como alumínio, chumbo e mercúrio. O presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), Otto Baptista, afirma que em contato com o organismo, esse metal causa cólicas abdominais, náuseas, raquitismo e alterações neurológicas com graves danos ao tecido cerebral.

Paulo Cezar de Siqueira Silva, gerente de engenharia de meio ambiente da Samarco, relata que foram analisados 1.600 organismos, em 2 meses. Os testes com pescado na região de Barra Seca, ao Norte da foz do Doce, apontaram níveis de arsênio quase 5 vezes acima do permitido.

À beira do Rio Doce, em Baixo Guandu, vivem famílias com gerações e gerações de pescadores. Para essas pessoas, o rio não é só a fonte da sobrevivência, mas parte de suas vidas. Eles estão se sentindo esquecidos e reclamam que muitos ainda não recebem o auxílio oferecido pela Samarco.

A Marinha, que fazia medição das conseqüências de poluição no Rio Doce e divulgou sigilo por cinco anos do relatório, decidiu divulgar os dados coletados e confirmou os danos ambientais – quatro metais pesados em alta concentração foram encontrados na área da foz do Rio Doce, no norte do Espírito Santo. O resultado da pesquisa foi liberado pelo Ibama. Em entrevista para o Portal G, a professora de Ecologia Sigrid Costa classificou os resultados como preocupantes, devido ao riscos que os metais, em excesso, podem causar ao corpo.

“O chumbo, em qualquer proporção, traz prejuízos ao ser humano, assim como o arsênio, que é considerado tóxico e atinge o sistema nervoso e consequentemente vários sistemas. Já o manganês dificulta a captação de oxigênio e o selênio causa problemas de pele”, declarou.

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(Foto: Reprodução)

Enquanto a Samarco levava multas trabalhistas, multas de órgãos ambientais e prolongava o layoff de seus funcionários até 25 de junho, a lama continuava vazando. Como???

A promotoria alega que a perícia identificou que, só em 2016, cinco milhões de m³ de rejeitos desceram para a Bacia do Rio Doce. A mineradora projetou quatro diques após o desastre ambiental para conter o vazamento. Segundo a ação, “os ‘diques’ foram construídos de forma precária, sem observância das normas técnicas pertinentes, não possuindo a capacidade de retenção e filtragem necessárias”.

Segundo órgão ambiental, o chamado dique S3 é hoje o único operante, de um total de quatro barramentos projetados para tentar reter rejeitos que continuam a descer da represa rompida em 5 de novembro (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Segundo órgão ambiental, o chamado dique S3 é hoje o único operante, de um total de quatro barramentos projetados para tentar reter rejeitos que continuam a descer da represa rompida em 5 de novembro (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)

Inimaginável.

Analistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) afirmaram à TV Globo que a Usina Hidrelétrica (UHE) Risoleta Neves – também chamada Candonga -, afetada pelos rejeitos, corre risco de se romper. De acordo com os técnicos, 10 milhões de metros cúbicos de rejeito estão apoiados em uma estrutura da usina.

Moradores sofrem com a poeira e com a água barrenta. Uma reportagem do Jornal Hoje mostrou o drama vivido pelos moradores.

A esperança é recuperar as nascentes e os rios da Bacia do Rio Doce. Muitos projetos estão sendo propostos – do fotógrafo Sebastião Salgado aos pesquisadores Tatiana Hurley (bióloga) e o Fernando Aquinoga (ecologista e toxicologista) voltaram do Canadá para se reuniram com mineradoras, petrolíferas, pesquisadores e órgãos e agências ambientais do país. Tudo começa com o  estancamento do rejeito e a estabilização da área mais afetada fisicamente pelo material. “Depois dessas ações tomadas começam as medidas de monitoramento gerenciais para poder se entender os impactos”, afirmou.

Outra alternativa é a restauração pluvial: a recuperação física primeiro, refazendo os meandros (sinuosidade de um curso de água), o fundo do rio (área com mais cascalho, para ter biodiversidade) e criando a parte física do rio.